O corpo absorve os hidratos de carbono da mesma forma com frio do que com calor?
Quem já participou em corridas em diferentes épocas do ano, provavelmente já constatou que a mesma estratégia nutricional nem sempre funciona da mesma forma.
Um gel energético que foi perfeitamente tolerado durante um treino de inverno pode ser muito mais difícil de consumir numa competição disputada sob calor intenso.
Mas trata-se apenas de uma sensação subjetiva? A resposta é não.
A evidência científica demonstra que a temperatura ambiente influencia diretamente diversos processos fisiológicos relacionados com a digestão, a absorção de nutrientes e a tolerância gastrointestinal durante o exercício.
Compreender estas diferenças pode ajudar os atletas a planear melhor a sua ingestão de hidratos de carbono, líquidos e eletrólitos, reduzindo o risco de desconforto digestivo e melhorando o desempenho.
O que acontece no organismo durante o exercício com calor?
Durante uma corrida ou treino prolongado, o corpo gera uma grande quantidade de calor. Para evitar um aumento excessivo da temperatura corporal, ativa distintos mecanismos de arrefecimento, sendo o principal a transpiração.
Ao mesmo tempo, ocorre uma redistribuição do fluxo sanguíneo. Uma maior quantidade de sangue é direcionada para a pele para facilitar a dissipação do calor para o ambiente.
Esta adaptação é fundamental para regular a temperatura corporal, mas tem uma consequência importante: fica menos fluxo sanguíneo disponível para alguns órgãos internos, entre eles o aparelho digestivo.
Quanto maior a temperatura ambiente, maior a competição pelo fluxo sanguíneo entre músculos, pele e intestino.
O intestino passa para segundo plano
Quando está calor, o organismo prioriza as funções mais importantes para manter o desempenho e a sobrevivência.
Os músculos precisam de oxigénio para continuar a produzir energia e a pele requer um maior aporte sanguíneo para favorecer a perda de calor.
Como consequência, o sistema digestivo recebe menos irrigação sanguínea.
Este fenómeno, conhecido como hipoperfusão esplâncnica, tem sido amplamente descrito na literatura científica. Quando ocorre, diversos processos fisiológicos podem ser afetados, entre eles:
- Um esvaziamento gástrico mais lento.
- Uma menor absorção de água e nutrientes.
- Um aumento da permeabilidade intestinal.
- Um maior risco de desconforto gastrointestinal.
Por isso, muitos atletas descrevem a sensação de ter o "estômago parado" durante competições disputadas em condições de muito calor.
Porque são os desconfortos gastrointestinais mais frequentes quando está calor?
Náuseas, refluxo, cãibras abdominais, sensação de peso e até mesmo episódios de diarreia são relativamente frequentes em provas de resistência. Embora existam múltiplos fatores que podem provocar estes sintomas, as altas temperaturas são um dos principais.
Quando o intestino recebe menos fluxo sanguíneo, o seu funcionamento é temporariamente comprometido. Além disso, a desidratação, muito comum em ambientes quentes, pode agravar ainda mais esta situação.
Diversos estudos mostram que o calor aumenta o stress fisiológico do exercício e favorece alterações na barreira intestinal. Em alguns casos, isto facilita a passagem de substâncias inflamatórias para a corrente sanguínea, aumentando o desconforto digestivo e reduzindo a tolerância à ingestão.
Por isso, não é raro que um atleta seja capaz de consumir grandes quantidades de hidratos de carbono durante treinos com temperaturas amenas e, no entanto, tenha dificuldades em fazê-lo em competições disputadas sob calor intenso.
O frio altera esta situação?
Em termos gerais, sim.
Com temperaturas mais baixas, o organismo precisa de dedicar menos recursos ao arrefecimento corporal. Como consequência, a redistribuição do fluxo sanguíneo costuma ser menos pronunciada e o aparelho digestivo mantém um funcionamento mais eficiente durante o exercício do que em condições de calor extremo.
Além disso, os atletas costumam apresentar:
- Menor taxa de transpiração.
- Menor risco de desidratação.
- Menor stress cardiovascular.
- Melhor tolerância gastrointestinal.
Isto não significa que o frio seja automaticamente melhor para o desempenho, mas ajuda a explicar porque muitas pessoas conseguem alimentar-se com maior facilidade durante o exercício quando as temperaturas são frescas ou moderadas.
Então, o calor reduz a absorção dos hidratos de carbono?
É uma pergunta muito interessante.
A evidência científica atual sugere que o principal problema não é que o intestino perca a capacidade de absorver hidratos de carbono, mas que o conjunto de alterações fisiológicas dificulta que estes cheguem de forma adequada ao local onde devem ser absorvidos.
Em outras palavras, o calor pode dificultar:
- O esvaziamento do estômago.
- O transporte de líquidos para o intestino.
- A manutenção do conforto gastrointestinal.
- A capacidade de sustentar uma elevada ingestão de hidratos de carbono durante o exercício.
Na prática, isto significa que a estratégia nutricional deve ser planeada com maior cuidado quando as temperaturas são elevadas.
O que pode o atleta fazer?
A boa notícia é que o intestino também pode ser treinado. Tal como treinamos os músculos ou o sistema cardiovascular, é possível adaptar o aparelho digestivo para tolerar melhor a ingestão de hidratos de carbono durante o exercício.
Algumas estratégias recomendáveis são:
Treinar a ingestão de hidratos de carbono
Não deixe os géis energéticos para o dia da competição. O intestino responde melhor quando se acostuma, durante os treinos, às quantidades de hidratos de carbono que serão consumidos na corrida.
Ajustar a hidratação
A desidratação aumenta o stress gastrointestinal. Por isso, manter uma correta reposição de líquidos e eletrólitos é fundamental, especialmente quando está calor.
Evitar experimentar produtos novos
Quanto maiores forem as exigências impostas pelo calor, menos recomendável será experimentar novos produtos ou estratégias nutricionais durante a competição.
Fracionar a ingestão
Consumir pequenas quantidades de hidratos de carbono de forma regular costuma ser mais confortável do que ingerir grandes doses em poucos momentos.
Priorizar produtos com alta tolerância gastrointestinal
As formulações concebidas para facilitar o trânsito gastrointestinal podem contribuir para uma experiência mais confortável durante exercícios prolongados.
Conclusão
O seu intestino não funciona exatamente da mesma forma durante uma corrida disputada a 12 °C do que em outra realizada a 32 °C.
O calor aumenta o stress fisiológico do exercício, favorece a redistribuição do fluxo sanguíneo para os músculos e a pele e pode aumentar o risco de desconforto gastrointestinal. Embora isto não implique necessariamente uma menor capacidade de absorver hidratos de carbono, pode dificultar a sua ingestão e a sua tolerância durante a competição.
Por isso, compreender como o ambiente influencia a resposta do organismo é tão importante quanto escolher a quantidade adequada de hidratos de carbono.
Uma boa estratégia nutricional não depende apenas do que consome, mas também das condições em que o seu corpo deve render.
E quanto melhor treinado estiver o seu intestino para enfrentar essas condições, maiores serão as probabilidades de manter a energia, o conforto digestivo e o desempenho até cruzar a linha de chegada.
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